sábado, 3 de abril de 2010

Meu Santo Protetor











Devoção e proteção: fé e cura


Por Cibele de Moraes, jornalista.

O burburinho no Centro Cultural na noite do 18 de março, indicava abertura de exposição. Era, porém, um murmurar quase respeitoso, explicado por um rápido olhar pelas janelas do casarão, que deixavam entrever imponentes imagens de santos, oratórios suntuosos e pequenos banners decorados à moda dos estandartes da Folia de Reis. Quem entrasse, se veria transportado para uma original combinação de realidades artísticas, das mais típicas de São João del-Rei: livros, devoção e música.
Era, de fato, uma exposição, preparada liturgicamente para a celebração da Semana Santa que se aproxima. Meu santo protetor fica em cartaz até o dia 11 de abril, podendo ser visitada das 8h às 20h. Com curadoria da professora Zandra Miranda e do artista plástico Carlos Calsavara, aluno do curso de Artes Aplicadas, a exposição nasceu, nas palavras da curadora, de “um encontro feliz de vontades.”
Uma série de 25 ilustrações, em formato digital, dos santos historicamente mais invocados para cura ou proteção de determinadas doenças é produzida na vizinha Barbacena (MG) pelo desenhista Edson Brandão para o lançamento do novo livro do dermatologista Geraldo Barroso, estudioso da história da Medicina. Ele foi o responsável pela exumação dos restos mortais do Aleijadinho, quando se comprovou que, além da lepra, o iminente artista barroco sofria também de porfiria.
O título do livro é o mesmo da exposição, trazida para o Centro Cultural por sugestão do ilustrador, profundo conhecedor das riquezas culturais da Cidade dos Sinos. A idéia de expor imagens e objetos sacros confeccionados pelos santeiros de São João ao lado de estandartes ilustrados digitalmente, veio enriquecer o devocionário da cidade que é puro fervor nos ritos de celebração de uma Semana Santa das mais tradicionais do país. O livro traz ainda orações em forma de redondilhas a serem recitadas pelos devotos nas horas de maior aflição.
A presença do Dr. Geraldo Barroso, numa noite de autógrafos das mais marcantes de sua vida, aproximou razão e emoção: “Minha sensação de estar nesta cidade de tanta riqueza artística, de tanta riqueza cultural, de tanta riqueza histórica é de puro orgulho.”

Expositores
A mostra reúne trabalhos de grandes santeiros são-joanenses: Irmãos Silva, Miguel Ávila, Daniel Lopes, Rogério Rocha, Paulo Roberto, Carlos Calsavara, Ronaldo Nascimento, Edmilson Carvalho e Fernando Pedercini. Cada um com uma história original, de formação na fé, que vai do aprendizado autodidata a cursos no exterior.
Caso do escultor Fernando Pedercini, também aluno de Artes Aplicadas, que se especializou na Espanha na confecção de imagens de roca, como a majestosa Nossa Senhora das Dores que se vê no pórtico de entrada do Centro Cultural, vestida com o pálio antigo da Irmandade do Carmo, que foi doado a seu ex-coroinha. E quem for a Brasília, quando visitar a Catedral, farte os olhos com o Cristo em madeira lá exposto, de autoria de Miguel Ávila.
Depois do deslumbre com a imaginária devocional, o visitante se depara com as ilustrações digitalizadas de Edson Brandão, que promovem uma releitura moderna e bem-humorada dos poderes atribuídos aos santos listados no livro do Dr. Geraldo Barroso. Com base na experiência de quem se formou na escola do cartum difundida pelo Pasquim, onde chegou a trabalhar em fins da década de 80, Brandão nos brinda com uma Santa Clara assistindo à TV e um São Bernardo coroado com a estrela vermelha, numa alusão ao célebre reduto petista do ABC paulista, entre outras finas ironias. “Há uma liberdade em se agregar elementos contemporâneos à invocação mais conhecida de alguns santos, mantida, porém, a reverência. Não por acaso, em todas as ilustrações está impresso o ora pro nobis”, destaca o artista.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

As pegadas do Barão de Langsdorff em terras mineiras

O Barão Georg Heinrich von Langsdorff (1774-1852) certamente era um homem bastante vigoroso. Relatos dão conta de que às margens do rio Juruena, norte do Brasil, o Barão acometido de terríveis febres tropicais tinha crises tão violentas de calafrios, que era atado por seus companheiros de viagem às redes onde quase agonizava e, para espanto de todos fazia tremer as copas das árvores amazônicas, com seus espasmos febris.
Corria o mês de maio de 1828, quando as informações desconexas escritas em caligrafia arruinada pela doença registram os últimos lances anotados pelo Barão em seus diários de viagem. Uma longa viagem que atesta a determinação e coragem deste diplomata-cientista que, quatro anos antes, aos 50 anos de idade, abandonou o conforto de seu gabinete de cônsul da Rússia na cidade imperial do Rio de Janeiro para percorrer o selvagem interior do Brasil: Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso, atravessando o pantanal até chegar à selva amazônica.
Para esta verdadeira epopéia científica iniciada em 8 de maio de 1824, o Barão arrastou consigo um batalhão de escravos, caçadores, batedores e comandou, enquanto sua lucidez permitiu, cientistas como Riedel, Ménétriés, Rubtsov, que posteriormente abarrotaram os museus da Rússia e Alemanha com espécimes da fauna, flora e da geologia brasileiras, e ainda trouxe artistas do porte de Rugendas, Taunay e Florence que marcaram para sempre a memória visual do Brasil.
Quanto do suor e do amor à ciência não foi exigido desses homens internados nos pontos mais inóspitos do Brasil, em busca dos conhecimentos sobre a América ainda por descobrir?
Quando Minas Gerais ainda era um irresistível destino para aventureiros europeus ávidos em conhecer de onde brotaram tanto ouro e diamantes, espalhados de forma inconseqüente pelo decadente império português, Langsdorff não perdeu tempo. E foi por Barbacena que ele começou sua expedição. Mais que isso, na carrancuda e fria cidadezinha mineira, repleta de mulatas a se oferecer para os viajantes, o Barão montou uma das bases de sua expedição. Ele teve até um barbacenense como auxiliar. O menino Constantin, cuja humilde missão era preparar os espécimes recolhidos, experimentou o privilégio de testemunhar a maior expedição científica que passou por Minas, na primeira metade do século XIX.
Mesmo depois de décadas decorridas, desde o fim da grande produção aurífera nas Minas Gerais, Langsdorff e seu cortejo de cientistas seguiram pela Estrada Real, colhendo informações sobre o meio natural, sobre a economia e a sociedade mineiras, poucos anos depois da independência do Brasil.
Em seus diários, Langsdorff observa, às vezes com lucidez, às vezes de forma bastante preconceituosa, o modo de vida dos mineiros e seus hábitos. Os textos dos diários alternam longas narrativas e parágrafos curtos, como um tweet em alemão gótico . No dia 8 de julho de 1824, ele escreve: “ No arraial das Mercês a perversão dos costumes é tão grande como em outros lugares e maior que em Barbacena. O desleixo e a preguiça das pessoas superam qualquer expectativa”.
Mais adiante, o Barão detecta a presença dos últimos indígenas da região central de Minas e anota: “À tarde encontramos muitos índios que vieram no domingo para a missa, todos bem vestidos e a maioria bêbada”. Eles estavam na região de Ubá.
Mas é na percepção da degradação ambiental, proveniente da mineração predatória que Langsdorff revela seus maiores temores quanto ao futuro da província. Sem ouro, a região mergulhava na miséria por falta de outras atividades produtivas. Nos arredores de São José del-Rei ( hoje Tiradentes) ele diz:
“ É difícil ter uma idéia dos absurdos e da devastação que se cometeu aqui nas escavações do ouro. É como se morros e vales tivessem sido rasgados e despedaçados por uma tromba d´água. A sede do ouro está tão enraizada nas pessoas que elas preferem passar fome na expectativa de achar ouro, vivendo na ociosidade, do que buscar, através da atividade agrícola, um sustento seguro”.
E Langsdorff sentencia: “ Onde há lavação de ouro, reina a pobreza !”
Enquanto suas palavras são insuficientes para descrever a enorme diversidade animal e vegetal de Minas Gerais, o Barão não se cansa de especular sobre como poderia ser melhorada a vida em Minas e profetiza o surgimento de uma grande capital.
Em 5 de outubro de 1824, 73 anos antes da inauguração de Belo Horizonte , ele registra em seu diário: “Três léguas ao sul de Santa Luzia, fica o arraial de Curral Del-Rei. Dizem ser uma região saudável e fértil. Os Rios das Velhas, São Francisco e Grande são navegáveis e piscosos. A vila em si, embora praticamente no centro desta província populosa e do Império está bem localizada: dela pode-se ter acesso ao Pará, por meio do rio Tocantins e a Montevidéu pelos rios Paraguai e Grande. Qualquer produto de outros países do mundo pode ser trazido para cá pelo Rio São Francisco e o Rio das Velhas. Não seria este local conveniente para se construir a nova capital do império?
E lá se vai o Barão selva adentro, sonhando com um Brasil grande e cheio de possibilidades não aproveitadas por seu governo e seu povo.
A viagem descrita nos diários ainda duraria mais seis meses, até o retorno à Fazenda da Mandioca, na região serrana do Rio de Janeiro, verdadeira base científica de Langsdorff no Brasil.
Ali ele finalizou seu primeiro relatório, em 18 de maio de 1825, com as seguintes palavras: É bem mais fácil e menos cansativo para um leitor, sentado em sua poltrona, ler superficialmente algumas observações que, até lhe pareçam supérfluas, do que para um viajante no Brasil, ter que esperar dias a fio a volta de animais perdidos e fujões, passar por todo tipo de incômodo, ficar sob sol escaldante e ainda sujeito a passar fome. Não é raro o viajante ter que deitar seu corpo cansado sobre peles de boi duras, ao invés de sofás macios, sempre correndo o risco de ver destruída, dispersada ou perdida toda a sua bagagem, instrumentos valiosos e material de História Natural colhido.”
E sem imaginar o fim trágico que o aguardava, ele arremata:“É impossível fazer uma viagem confortável neste país.”

sábado, 30 de janeiro de 2010

Langsdorff, um aventureiro esquecido

A célebre expedição do Barão Georg Von Langsdorff (1774-1852) daria um enredo para um filme e tanto! Percorrer 17 mil km Brasil adentro, a bordo de um jipe off-road já seria digno de uma aventura. Imagine, caro graphicardíaco, fazer isso a pé, em lombo de mulas ou em precárias canoas? Pois foi isso que o nobre alemão a serviço do Czar Alexander I fez no início do século XIX, junto com artistas e outros cientistas, convidados para estudar a fauna, flora e até astronomia, a partir dos sertões brasileiros. O médico alemão, que já tinha dado a volta ao mundo anos antes, era um aventureiro para ninguém botar defeito. Mas a expedição acabou se transformando em uma grande tragédia pessoal para o próprio Barão que enlouqueceu em plena floresta tropical, foi acometido de malária e teve um dos seus auxiliares morto durante a travessia de um rio. Por fim, passou para a posteridade taxado por muitos historiadores como um lunático e irresponsável. Tudo isso fez desta fantástica expedição artística e científica um grande mistério. De volta à Europa, doente e mentalmente perturbado, Langsdorff não conseguiu publicar praticamente nada de suas viagens e o mais incrível: até 1930, caixas e caixas de material científico de valor inestimável permaneceram esquecidas nos porões da sede administrativa do Jardim Botânico de São Petersburgo, na Rússia. Somente com o fim da União Soviética e a aproximação do Brasil e Rússia, por ocasião da Conferência Rio 92, é que pesquisadores brasileiros puderam ter contato com parte do acervo de espécimes e minerais recolhidos. E o mais valioso: os magníficos cadernos contendo os diários do viajante e naturalista.
No final dos anos 90, os textos foram traduzidos para o português, em um trabalho da AIEL - Associação Internacional de Estudos Langsdorff - criada em Brasília, em 1990, pelo pesquisador russo Boris Komissarov, da Universidade de São Petersburgo. Tive contato com essa história nos anos 90, quando um grupo da AIEL, liderado por Danuzio Gil Bernardino da Silva veio a Barbacena para tentar registrar algum resquício da paisagem que o jovem Johann Moritz Rugendas, então o desenhista oficial da expedição, registrou em aquarelas. As duas silhuetas das Igrejas da Piedade e Boa Morte são bem reconhecíveis na delicada aquarela que Rugendas esboçou num dia frio de junho de 1824, provavelmente no alto do morro onde hoje está o pequeno estádio do Olimpic Club.
A partir daí, passei a compartilhar com a turma do Langsdorff um pouco da angústia de ver esta obra tão importante permanecer pouco divulgada. Soube depois, que até Jorge Amado, nos anos 60, usando seu prestigio de comunista histórico, tentou que o governo soviético permitisse o acesso de pesquisadores brasileiros ao acervo do Barão, mas a coisa continuou emperrada.
A tradução dos diários, publicada em uma produção gráfica caprichada feita pela Editora da FIOCRUZ foi um grande momento para essa confusa história. Em 1998, por meu intermédio, o Prof. Danuzio veio mais uma vez a Barbacena, para uma palestra no curso de História da Unipac, curso este que abandonei por absoluta falta de motivação.Assim tornei-me um apaixonado pelo tema. Alguns livros de arte foram lançados revelando parte do valioso material. E até descendentes de membros da expedição reviveram alguns trechos percorridos. Mas há muito mais a descobrir...

sábado, 16 de janeiro de 2010

Museu x amnésia

Este desenho feito por volta de 1998, definia como deveria ficar a fachada do Museu Municipal de Barbacena depois de pronto. Uma vitória de muitos anos antecipada em gouache e bico de pena. No dia 9 de junho de 2009, o Museu Municipal "comemorou "10 anos de existência. Provavelmente ninguém se lembrou da data - justamente da principal casa de memória de uma cidade desmemoriada de 218 anos. Só a recuperação da antiga tipografia do Jornal Cidade de Barbacena ( fundado em 1898), reconstituida no porão da casarão já valeu todo o esforço para a existência do Museu. Mas lá dentro, tem muitos outros tesouros silenciosamente salvos.
Talvez por estar sendo zelosamente ignorado em sua importância, o Museu esteja a salvo de intervenções e "revitalizações". Se for para manter-se vivo e íntegro, que assim seja...

Bush's echoes


Em 2005, fiz uma pequena HQ sobre o famigerado George Walker Bush e seus métodos do velho oeste. Encontrei por acaso os originais desta historinha e compartilho com os graficardíacos dois frames dela...

domingo, 10 de janeiro de 2010

Água!


O desenho é de 2007 mas continua valendo. O preço do desrespeito à natureza está sendo cobrado...Líquido e certo!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Miguilim e Manuelzão


Todo mundo tem uma história bonita para contar. Seja uma aventura, uma descoberta, um amor, uma saudade... Se não aconteceu de verdade, pode até ser inventada . O importante é contar com criatividade ou soltar a imaginação. Assim fazia o grande escritor mineiro João Guimarães Rosa (1908- 1967). Ele foi médico, militar e diplomata. Morou no início dos anos 30 em Barbacena, era capitão médico do 9º Batalhão da Polícia e em Barbacena nasceu uma de suas filhas. Em 1956, lançou o livro “Grande Sertão: Veredas,” um marco na literatura brasileira e certamente na literatura mundial, ainda que suas traduções não consigam transmitir toda a intensidade de um texto que reinventa a própria língua portuguesa. Dentre vários personagens, Guimarães Rosa criou dois muitos especiais: Miguilim, um menino fictício cheio de realidade e Manuelzão, um homem real, pleno de ficção. O primeiro, menino travesso e inteligente, gostava de seus irmãos e com eles ia descobrindo os mistérios da vida. O personagem infantil aparece na novela Campo Geral, originalmente parte do livro Corpo de Baile, lançado em 1956. No texto, Rosa define o moleque: “Miguilim não tinha vontade de crescer, de ser pessoa grande, a conversa das pessoas grandes era sempre as mesmas coisas secas, com aquela necessidade de ser brutas, coisas assustadas.” Quanto ao segundo, Manuelzão era um vaqueiro sábio e grande contador de estórias. O personagem foi criado a partir das vivências de Manuel Alves Nardy (1904-1997). Foi este vaqueiro que ensinou as astúcias do sertão a João Rosa. Manuelzão acima de tudo era um grande contador de causos. Apareceu na novela Estória de Amor, também do livro Corpo de Baile.
Em 2006, criei para a Prefeitura local o material gráfico de um concurso sobre os dois personagens, grandes representações da infância e da velhice, ambos tempos de grande sagacidade e perspicácia. Duas coisas que a plenitude da vida adulta e “produtiva”nos rouba.
O desenho que fiz foi uma deliciosa volta às origens, quando, com papel, tesoura e cola eu me sentia bem mais equipado artisticamente. Coisa que Mac Pro, Photoshop, Illustrator e Cintiq, mesmo custando pequenas fortunas, não são capazes de proporcionar...